Imagem capa - Ah Brasil, você é muito maior do que isso por Ivna Sá Para Mulheres

Ah Brasil, você é muito maior do que isso













Tenho 43 anos. Na eleição de 1989, entre Collor e Lula, depois de 20 anos de ditadura militar, eu estava com 15 e vivi intensamente aquele momento. Cantava LULAAAAA, BRILHA UMA ESTRELA... mas não podia votar. Falava-se coisas horríveis do tal barbudo e analfabeto e, na outra ponta, foi construído um candidato que iria tirar o Brasil da corrupção (o caçador de marajás). Collor ganhou, confiscou o dinheiro da poupança dos brasileiros, não tinha capacidade para governar e sofreu o impeachment. Desde já aprendemos que quando se elege um candidato, devemos olhar SIM quem é o vice.

Assumiu Itamar Franco, veio o Plano Real e, de 1994 até 2014, vivemos a polaridade PT e PSDB. Rompendo uma tradição republicana no Brasil, o presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu a aprovação pelo Congresso do instrumento da reeleição, tornando-se o candidato natural da coalizão governista à sucessão em 1998. O PT assumiu o poder em 2002, depois de tentar pela 4ª vez. O partido entendeu que era necessário mudar a cara do barbudo. O marketing mudou o "Lula comunista e subversivo" para o "Lulinha Paz e Amor", com o slogan "A esperança vence o medo". Foi feita aliança com o Partido Liberal, tendo José Alencar, como vice. Aí surge a primeira pergunta: o PT representa mesmo um partido de esquerda ou seria mais um centro esquerda?

Decidido a erradicar com a miséria, Lula abraçou o projeto do sociólogo Hebert de Souza que, em 1993, fundou a Ação da Cidadania, programa de luta pela vida e contra a miséria. Nascia o projeto FOME ZERO, marca principal do governo Lula. O Brasil cresceu economicamente, vimos jovens entrar na universidade, mais distribuição de renda, as pessoas podendo consumir, andar de avião...Mas (por que sempre tem que haver um mas???) a sede de poder e a corrupção tomaram força e estamos presenciando a miséria se instalar novamente.

População de rua aumenta dia a dia, cresce a violência. Nessas horas, a gente quer um salvador da Pátria, que vá resolver tudo. A gente quer um "messias". E não poderia ser mais "providente" termos um candidato que leva o nome do Salvador em seu nome. De repente, a gente presencia um candidato que traz em seu discurso "a defesa da família, da vida, que vai combater a violência com justiça às vítimas, que vai acabar com a ameaça comunista" sendo tratado como um mito.

Está longe de ser o candidato mais preparado, basta ouvir suas entrevistas e inúmeros vídeos disponíveis na rede, mas como muitos dizem: "Meu voto não é no Bolsonaro, é anti PT". Aí eu penso, não seria o caso então de anular o voto? Eu vou votar em um candidato em quem não acredito para salvar o Brasil do PT? E mais. Vou basear meu voto em questões religiosas sem se quer analisar as questões que dizem respeito à capacidade administrativa, diplomática e política? Ademais, pelo viés religioso, é importante perceber que há incoerências por parte dos dois candidatos.

Lula errou feio quando insistiu em uma candidatura, mesmo preso. Tomando as palavras de Eliane Brum, se fosse um estadista, teria feito uma colisão de Ciro Gomes e Haddad como vice, para não dividir o Brasil assim. A eleição vai acabar dia 28. No final do dia, já saberemos quem será o novo presidente do BRASIL. Mas, infelizmente, esse clima de violência não parece que vai acabar. O estrago já foi feito, porque a crise não é só política ou econômica, é a crise da palavra também. Nestes 30 anos, nunca presenciei uma eleição tão imbecil, tão vazia e periférica.

A violência tomou conta dos discursos. De repente, a gente acha lindo vê as crianças utilizando os dedos para demonstrar uma arma. A gente vê gente usando esse gesto para fazer selfie. Escuta o vice de Bolsonaro dizendo: "ele é capitão, eu sou o general. Tá certo que o presidente será ele, mas eu não sou um vice anencéfalo". A gente vê Alexandre Frota sendo eleito pelo partido PSL e a Manuela D´Ávila apoiando a candidatura da funkeira MC Carol. Vê gente que mudou o nome no facebook para Fulano Bolsonariano. Vê slogan de gente séria "FICATEMER". Vê convite para participar de um evento que quer ensinar como conversar com o eleitor de Bolsonaro. Vê fake news ou matérias que chegam a causar nojo sendo plantadas e divulgadas por pessoas com alta capacidade intelectual. E por fim, recebe no seu zap a seguinte notícia: "Candidato do PT escreve livro que defende relação sexual entre pais e filhos".

Nessa hora, você para e pensa: o nível mínimo de racionalidade esvaziou-se por inteiro. Restou um processo eleitoral doentio, patológico, agressivo, violento. Termino com parte do texto da psicanalista Ilana Katz, em seu artigo: o ódio deitou em meu divã:

"Tenho escrito há anos que a crise do Brasil não é só política e econômica, mas uma crise da palavra. Quando tudo pode ser dito, nada mais diz. As palavras, no Brasil, se tornaram palavras fantasmas, porque nada movem."

Ah Brasil, você pode ser maior que isso...Quanto a mim, insisto na Esperança. Foi com ela que muitos dos que nos antecederam lutaram para que vivêssemos um um país democrático. E essa conquista a gente não pode considerá-la banal.


Ivna Sá Dos Santos
Jornalista, fotógrafa, professora, mãe e cristã.


A vida, em todas as suas dimensões, é e sempre será o valor maior. Ela precisa ser preservada de todos os tipos de armas, inclusive a da palavra.